




Os filósofos Deleuze e Guattari denominam agenciamento todo conjunto de singularidades e de traços extraídos do fluxo de maneira a convergir. O agenciamento é sempre um movimento de invenção que gera outros movimentos, acionando possíveis convergências.
Ref: Deleuze G. e Guattari F. Mil Platôs Capitalismo e Esquizofrenia vol 5, p. 88, trad. Peter Pál Pelbart, ed. 34, 1980.
Agenciamento
Realismo Agencial
Além de buscar agenciamentos, a cientista Karen Barad lança o termo realismo agencial. Este seria o ponto de partida para a sua teoria ontológica que define o universo como um conjunto de fenômenos resultantes de intra-ações (ao invés de interações), desafiando a ideia de que entidades possuem fronteiras pré-existentes. Barad construiu a sua metodologia a partir de alianças entre ciências e filosofia, estudando também outras autoras que já vinham se interessando por essas pontes, como era o caso de Donna Haraway, ao conectar filosofia e ciência; e de Judith Butler, que havia deslocado a discussão das performatividades (concebida na área da linguística) para o âmbito político, complexificando debates de gênero e políticas do corpo.
Ref: Juelskajaer, M. et alii Dialogues on Agential Realism: Engaging in Worldings through Research Practice. Routledge, 2020.
Murris, Karin Karen Barad as Educator, Agential Realism and Education. Springer, 2022
Intra-ação
Intra-ação é um conceito central para o realismo agencial de Karen Barad. Significa uma
produção mútua de agentes e/ou fenômenos, onde as entidades emergem de dentro da relação, em vez de preexistirem a ela. Diferente da interação (que assume agentes separados, como por exemplo sujeitos e objetos), a intra-ação propõe que nada seja separado nem dado a priori, focando sempre nos atravessamentos.
Ref: Harris, D. Feminist Materialism: Intra-Action and Diffraction. Cambridge Scholars Publishing, 2021.
Difração
Além da intra-ação, um outro termo fundamental para Barad é difração: um fenômeno físico que acontece quando uma onda atravessa um obstáculo. A difração também constitui o realismo agencial e tem como mote o reconhecimento de que agenciar não é uma ação exclusivamente humana. A teórica feminista vietnamita Trinh T. Min-ha estudou como as ondas não desaparecem ou se paralisam quando encontram obstáculos, mas, ao invés disso, se espalham de modo incontrolável. A difração seria, então, um modo de estudar configurações de diferença, abrindo um caminho político de discussão e considerando como obstáculos a misoginia, o racismo e tudo aquilo que costuma atravancar os fluxos de vida.
Barad, Karen Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement
of Matter and Meaning. Duke University Press, 2007.
Altereconomia
Altereconomia é muitas vezes associada à economia solidária, bioeconomia e formas de lidar com pluralidades econômicas. Seria, portanto, uma referência para formas alternativas à economia hegemônica capitalista. Foca em atividades baseadas na solidariedade, autogestão, sustentabilidade e valorização social. Mas Brian Massumi propõe uma nova dimensão ao pensamento econômico que estaria “abaixo” do nível microeconômico relativo ao indivíduo. Ele convoca um nível infraeconômico onde uma comoção afetiva gira e se mistura internamente. O termo infraeconômico é inspirado em Barad e na ideia de infra-ação. Neste caso não se trataria de uma alternativa mas em fluxos de afetos que movimentam a própira economia e, normalmente, são imperceptíveis. Baseado na pesquisa de Gilles Deleuze, Massumi vai considerar o indivíduo como um “divíduo”. Por isso, o modo infra não seria de um para um (de indivíduo para indivíduo), mas sempre entre muitos. A politica do dividualismo opera na moeda da intensidade ao invés da satisfação individual. Envolve cuidado com o acontecimento do encontro, considerando que aquilo que existe são condições singulares e o ativismo dos acontecimentos.
Ref. Massumi, Brian A economia contra si mesma, por uma arte anticapitalista do acontecimento. Trad. Alyne Azuma. ed n-1, 2024.
Massumi, Brian 99 Teses para uma revaloração do Valor, um Manifesto Pós-Capitalista, trad. Pablo Assumpção. Ed. GLAC, 2020.
Obs:Vale uma visita no site 3 ecologies, projeto desenvolvido por Brian Massumi e Erin Manning com textos, projetos e muitas imagens disponiveis: https://3ecologies.org
Alterpolítica
A alterpolítica (ou política da alteridade) refere-se a uma abordagem política fundamentada no reconhecimento ético da diferença e na relação com o "outro" como um ser singular, indo além da simples tolerância à diferença. Ela propõe formas de organização social que respeitam as pluralidades e fomentam a co-existência baseada na diversidade, em contrapartida ao individualismo ou à homogeneização, frequentemente discutida no contexto de novas formas de ação social. Ghasan Hage afirma que ao lidar com alternativas, é necessário pensar alterpoliticas, altereconomias e alternativas para modos de viver e habitar a terra, além de modos alternativos para pensar e experienciar outridades (otherness). Brian Massumi discute especificamente uma alterpolítica afetiva que seria uma política estética trazendo a coletividade dos acontecimentos compartilhados: um potencial corpóreo e múltiplo do que pode vir a ser. A política afetiva seria sempre dissensual, no sentido de juntar alternativas contrastantes sem exigir que uma se efetive e as outras desapareçam - e sem implicar em nenhum tipo de homogeneidade.
Ref.
Hage, Ghasan Alter-politics, Critical Anthropology and the Radical Imagination. Melbourne University Press, 2015.
Massumi, Brian A economia contra si mesma, por uma arte anticapitalista do acontecimento. Trad. Alyne Azuma. ed n-1, 2024.
Massumi, Brian Ontopower, War, Powers, and the State of Perception. Duke University Press, 2015.
Animacidade
Animacidade foi, inicialmente, um conceito proposto pelo antropólogo linguístico Michael Silverstein para classificar substantivos com base na sua vitalidade, agência ou senciência, buscando romper com a dicotomia radical entre seres vivos (animados) e objetos inertes (inanimados). Os níveis de animacidades sempre impactaram gramaticalmente a estrutura de frases, como no uso de verbos específicos para presença ou posse em línguas como japonês, georgiano e tcheco. Mel Y. Chen em seu livro Animacidades, Biopolítica, Materialidade Racial e Afeto Queer expande esse conceito para pensar em uma escala cognitiva que transita entre seres animados e inanimados de modo que essas categorias deixam de ser restritas à linguística. Sua pesquisa lida com zonas de vida que não consideram o ser humano como único produtor de conhecimentos, apresentando exemplos de animacidades no cinema, nos filmes de animação, em experiências cotidianas e desastres ecológicos.
Ref: Chen, Mel Y. Animacidades, Biopolítica, Materialidade Racial e Afeto Queer, trad. Erneste. Ed n-1, 2023.
Greiner, C. Corpos crip instaurar estranhezas para existir. Ed n-1, 2023.
Obs: Vale checar o site https://www.dukeupress.edu/series/anima-critical-race-studies-otherwise
Referente à coleção de livros Anima critical race studies otherwise, publicados pela Duke University Press, com curadoria de Mel Y. Che, Jasbir Puar e Ezekiel J. Dixon-Román.
Animismo maquínico
O animismo maquínico é um conceito que foi explorado por Félix Guattari. Considera o animismo como uma lógica agenciadora que descentraliza a subjetividade de sujeitos exclusivamente humanos. O modo como discute o animismo não tem relação com os debates coloniais que o consideravam como uma prática esotérica de povos primitivos que admitiam a presença da alma em diversas instâncias da natureza (incluindo animais, vegetais e objetos diversos). Guattari sugere que a descentralizacão da subjetividade implica no reconhecimento de uma pluralidade de seres (animados e inanimados) com interioridade e isto nada tem a ver com religião ou estigmas coloniais. Tal proposição vale também para a era tecnológica, na qual aparelhos não apenas registram, mas manifestam uma vida própria, uma cognição latente, evitando categorias estanques que separam e hierarquizam máquinas, humanos, deuses e natureza. O foco são os agenciamentos.
Ref: Melitopoulos, A., & Lazzarato, M. (2018). “O animismo maquínico”. Cadernos De Subjetividade, (13), 7–27. https://doi.org/10.2354/cs.v0i13.38462
Artisticidade
No senso comum, artisticidade é definida como a qualidade, propriedade ou característica daquilo que é artístico, referindo-se ao conjunto de elementos que conferem valor estético, criatividade e intencionalidade a uma obra ou ação. Define o que faz com que algo seja considerado "arte", envolvendo o uso da sensibilidade, técnicas e expressão para criar significados, emoções e beleza. No entanto, autores como Yasuo Yuasa (1987) e Erin Manning (2016), apresentam outras possibilidades de definição. Os dois autores chamam a atenção para o modo da arte ao invés da forma da arte. Em japonês o termo seria geidô, traduzido na obra de Yuasa como artistry, e Manning usa em inglês artful (ness). Não se trata da forma ou do conteúdo mas da habilidade para se fazer sentir no acontecimento da composição. Neste viés, todo objeto seria um campo de relações. A artisticidade poderia ser definida como o mergulho no processo de criação. Em outras palavras, esses estudos apontam para o reconhecimento da arte como um modo de produzir conhecimento, que pode ser usado mesmo quando não resulta em nenhum produto artístico.
Ref: Yasuo, Yuasa, The Body, Toward an Easter Mind-Body Theory, cap. 5, Theories of Artistry p. 99-109. Suny Books, 1987.
Manning, Erin The Minor Gesture. Duke University Press, 2016.
Nöe, Alva The Entanglement: How Art and Philosophy Make Us What We Are. Princeton University Press, 2023.
Obs: No site de Nöe há artigos e outros títulos que concernem às relações entre arte e vida. https://www.alvanoe.com/about-alva
Assembleia
Assembleia (assemblage) tem uma conotação singular na obra de Anna L. Tsing e se refere a agrupamentos dinâmicos e abertos de espécies (humanas e não humanas), histórias que coabitam e interagem constituindo-se mutuamente. Diferente de estruturas fixas, as assembleias focam em relações e encontros e não são uma máquina lógica, mas imitam a multiplicidade do mundo. Tsing também usa o termo assembleia polifônica e explica que a polifonia descreve uma música na qual melodias autônomas se entrelaçam. Por isso, a assembleia polifônica lida com acontecimentos ou modos de vida autônomos e entrelaçados. Para Judith Butler, que também usa o termo assembleia em seu livro Corpos em Aliança, trata-se de uma forma performativa de ação política onde corpos se aliam no espaço público para resistir à precarização da vida e à marginalização. Não é apenas uma reunião, mas uma manifestação corporal coletiva que subverte a invisibilidade, reafirmando o direito à aparição e à vida em contextos de injustiça. Michael Hard e Antonio Negri também escreveram sobre assembleia pensando na reunião de multidões que não exigem uma centralização ou hierarquia. De acordo com esses autores, este seria o aspecto principal da assembleia para não acabar com a multiplicidade do mundo.
Ref: Butler, Judith Corpos em Aliança e a Política das Ruas, notas para uma teoria performativa da assembleia, trad. Fernanda Siqueira Miguens. Civilização brasileira, 2015.
Tsing, Anna L. O Cogumelo no fim do mundo, sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo, trad. Jorge Menna Barreto e Yudi Rafael. Ed n-1, 2022.
Hard Michael e Negri, Antonio Assembly, a organização multitudinária do comum, trad. Lucas Carpinelli e Jefferson Viel. Ed Politeia, 2018
Obs: O site Feral Atlas, com curadoria e edição de Anna L. Tsing, Jennifer Deger, Alder Keleman Saxena e Feifei Zhou traz um riquíssimo material referente ao tema das assembleias reuninco artigos, projetos artísticos, entre outros materiais. https://feralatlas.org
Comum-ismo
Invertendo a lógica marxista da estrutura social, que segue a cadeia economia-Estado-ideologia-cultura, Dockx e Gielen propõem que é a cultura que alimenta todas as relações, uma vez que as relações interpessoais constituem a base de valor de uma política do comum. O que os autores chamam de “comum-ismo” refere-se à totalidade da pessoa em seu contexto local e em seu ambiente global. A cultura seria responsável pela produção de sentido daqueles que constituem o comum, tornando-se a ignição para todos os outros fluxos: econômicos, jurídicos, ecológicos e políticos. De acordo com estes autores, o comum-ismo, assim como o comunismo, é uma ideologia, constituída em diferentes níveis de descrição, nem sempre conscientes e verbalizados. A ideologia do comum seria moduladora de subjetividades.
Ref: Docx, Nico; Gielen, Pascal (Org.). Commonism: a new aesthetics of the real. Amsterdam: Valiz, 2018.
Obs: A ampla pesquisa de Gielen envolve multiplos projetos entre os quais:
https://v2.nl/people/pascal-gielen
https://ccqo.eu/research-projects/
https://www.uantwerpen.be/en/research-groups/aria/
Co-Imaginação
Um dos aspectos que possibilita a emergência do comum-ismo é a co-imaginação. Diferente da lógica colonial que implica em uma hierarquia dos processos imaginativos entre colonizador e colonizado, a co-imaginação abre novas possibilidade de comunicação para a emergência do comum, indo muito além da noção de bens comuns. O que importa é o fluxo de subjetividades compartilhadas.
Monteiro, R. e Greiner, C. “O Comum como ação cultural: novos arranjos para uma política da cultura” in Revista Brasileira dos Estudos da Presença, 10 (2), 2020. https://doi.org/10.1590/2237-266094611
Compostagem
A definição mais comum de compostagem é a reciclagem de resíduos orgânicos, transformando restos de alimentos, cascas, folhas e podas de jardim em um adubo natural rico em nutrientes, chamado húmus. É um processo biológico que utiliza microrganismos (bactérias e fungos) para decompor a matéria, reduzindo lixo em aterros e ajudando o meio ambiente. Para Donna Haraway, "composto" (em inglês, compost ou com-post) refere-se a um modo de vida, parentesco e regeneração no Chthuluceno, onde seres humanos e não-humanos se relacionam uns com os outros através de interdependência, decomposição e "simpoiese" (fazer-com). É uma resposta ética à crise ecológica, propondo "fazer húmus" — criar novas formas de vida multiespécies — em vez de um "pós-humanismo" que busca escapar da Terra. As humusidades referem-se a uma abordagem filosófica, focada em conexões multiespécies, simbiose e regeneração. Proposta como contrapartida à crise ecológica, o conceito convoca humanos a se tornarem "húmus" (composto/solo), reconhecendo a interdependência entre todas as formas de vida, cultivando saberes localizados e práticas simpoéticas para um futuro coletivo. De acordo com Haraway, foi durante um café da manhã em sua casa que seu companheiro Rusten Hogness propôs “Composto, não pós-humano” e Humusidades ao invés de Humanidades (Haraway p 246, nota 4).
Haraway, D. Ficar com o Problema, fazer parentescos no Chthuluceno, trad. Ana Luiza Braga. Ed n-1, 2023.
Haraway, D. Manifesto das Espécies Companheiras – Cachorros, pessoas e alteridade significativa. Trad. Pê Moreira. Revisão técnica e posfácio Fernando Silva e Silva. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021
Confluência
A confluência é uma dessas palavras-sementes contracoloniais que define o encontro, união e coexistência de diferentes saberes e seres, sem que um anule o outro, formando um novo fluxo. Antonio Bispo considera a confluência uma de suas palavras mais germinantes. Diferente da síntese colonial (substituição), a confluência une rios, povos e saberes sem abolir as diferenças, mas adicionando diversidades.
Ref: Santos, A. B A Terra Dá, a Terra Quer. Ed. Piseagrama/ Ubu, 2023.
Conhecimento situado
O conhecimento situado é uma abordagem epistemológica proposta por Donna Haraway para afirmar que todo saber é parcial, localizado e corporificado, rejeitando a pretensão de objetividade neutra ou "universal" da ciência tradicional. Trata-se do reconhecimento de perspectivas singulares e contextuais.
Ref: Haraway, D. “Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial” in Cadernos Pagu, 5, 1995. https://www.copene2018.eventos.dype.com.br/resources/anais/8/1524482904_ARQUIVO_DonnaHarawaysaberessituados.pdf
Perspectivismo
No Brasil, Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze conceberam o chamado perspectivismo ameríndeo que seria também um modo de pensar conhecimentos situados. Eles explicam que o modo como os humanos veem os animais, os espíritos e outros personagens cósmicos é diferente do modo como esses seres os veem e se veem. É uma questão de grau, de contexto e de posição e não uma propriedade distintiva entre as espécies. O mundo é composto por uma multiplicidade de pontos de vista e todos os existentes são centros potenciais de intencionalidade. O perspectivismo foi também um conceito cunhado por Nietzsche que realizou uma crítica euroetnocêntrica, enfrentando a crise da razão ocidental e abrindo caminhos para uma filosofia intercultural, como explica Oswaldo Giacóia Jr.
Ref. Giacóia Jr, O. Perspectivismo e Interculturalidade. Ed n-1, 2025.
Viveiros de Castro, E. Metafísicas Canibais. Cosac Naify/n-1, 2015.
Corpomídia/Corpar
A Teoria Corpomídia, desenvolvida por Helena Katz e Christine Greiner, conceitua o corpo não apenas como um meio de comunicação, mas como um sistema aberto e um "fluxo de informações" sempre em troca com o ambiente, sendo o corpo uma mídia de si mesmo e não um meio ou instrumento de outra coisa. A teoria parte de uma metodologia indisciplinar relacionando dança, neurociência, semiótica e comunicação para entender o corpo como produtor de conhecimento. Katz propõe como uma evolução desta teoria, o termo "corpar": um verbo criado para descrever o processo ativo de transformar informação em corpo (conhecimento corpado), radicalizando as ações de "encarnar" ou "incorporar" (embodiment) que foram adotadas por várias teorias. Corpar é uma ação pela qual o corpomídia segue se modificando em fluxos, transformando a sua própria constituição através da experiência e do movimento.
Ref: Greiner, C. O Corpo pistas para estudos indisciplinares. Ed Annablume, 2005
Greiner, C. Corpo em Crise, novas pistas e curto-circuito das representações. Ed Annablume, 2010.
Katz e Greiner (orgs) Arte e Cognição, corpomídia, comunicação, política. Ed Annablume, 2015.
Katz, H. “Corpar porque corpo também é verbo” in Bastos, Helena (org) Coisas Vivas, fluxos que informam. ECA-USP, 2021.
Cosmopolítica
Cosmopolítica é um conceito filosófico e político que transforma, simultaneamente, as concepções de cosmos e de política. Diferente do cosmopolitismo clássico, de inspiração kantiana, e que vê todos os humanos como cidadãos iguais, a cosmopolítica questiona as fronteiras e inclui outras entidades (não-humanos, espíritos, etc.) na política, propondo uma "política dos mundos". Há definições cosmopolíticas de vertentes zapatistas, indígenas, filosóficas e antropológicas, com destaque para debates conduzidos por Eduardo Viveiros de Castro, Ailton Krenak, Isabelle Stengers, Yuk Hui, Jérôme Basquet, entre outros.
Ref: Basquet, J. A experiência zapatista: rebeldia, resistência, autonomia, trad. Domingos Nunez. Ed n-1, 2018.
Hui, Y. “Cosmotechnics as Cosmopolitics”, e-flux Journal 86, novembro 2017. https://www.e-flux.com/journal/86/161887/cosmotechnics-as-cosmopolitics
Krenak, A. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras, 2019.
Stengers, I. “A proposição cosmopolítica” Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil,
n. 69, p. 442-464, abr. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i69p442-464
Viveiros de Castro, E. “Cosmopolítica” in Os Involuntários da Pátria, ensaios de antropologia II. Ed n-1, 2025.
Ecocentrismo
O ecocentrismo é uma filosofia e uma ética ambiental que coloca a natureza, os ecossistemas e a biosfera no centro das preocupações, valorizando-os, independentemente da sua utilidade para os seres humanos. Ao contrário do antropocentrismo, defende que humanos são apenas parte da natureza e que esta constatação sempre fez parte das culturas não ocidentais.
Ref: Estok, S. C. & Won-Chung Kim East Asian Ecocriticisms, a critical reader. Palgrave Mac Millan, 2013
Pires et al. “Ecocentrismo e comportamento: revisão da literatura em valores ambientais” in Psicologia em Estudo, Maringá, v. 19, n. 4, out./dez. 2014 Doi: http://dx.doi.org/10.1590/1413-73722201204
Ecologia de práticas
Formulada por Isabelle Stengers, a ecologia de práticas é uma abordagem filosófica e metodológica que entende práticas diversas (científicas, artísticas, cotidianas) como interdependentes de seus contextos e materiais, recusando hierarquias. Propõe um pensamento não antropocêntrico, focado no cuidado, na interdependência dos seres e de seus ambientes. A proposta é evitar que alguma prática seja considerada menos ou mais significativa, assim como nenhuma espécie deve ser excluída por ser menos valorizada pelos parâmetros hegemônicos.
Ref: Stengers, I. “Notas introdutórias para uma ecologia das práticas” , trad. Camila Bevilaqua e Arthur Embassay. https://revistausina.com/2022/12/14/notas-introdutorias-para-uma-ecologia-das-praticas/
Espectro
Espectro refere-se a uma ampla gama de fenômenos, da física à medicina, até aparições sobrenaturais. No latim spectrum significa imagem ou aparição. Em japonês, o termo é yôkai, representando uma zona de contato entre fato e ficção. De acordo com Kazuhiko Komatsu, yôkai pode ser considerado em algumas situações como um evento, uma presença ou um objeto.
Ref: Komatsu, Kazuhiko An Introduction to Yôkai Culture, Monsters, Ghosts and Outsiders in Japanese Culture, trad. Hiroko Yoda and Matt Alt. Ed. Japan Publishing Industry Foundation for Culture, 2017
Obs: Exposições permanentes de yôkai podem ser visitadas nos sites abaixo
https://www.yokaiimmersive.com/en#about
https://www.into-you.jp/en/places/6817/
Virada espectral
A virada espectral refere-se a um campo de estudos acadêmicos que utiliza o conceito de espectro para focar em experiências narrativas, memórias e presenças/ausências que assombram o presente. Esta abordagem tem explorado a espectralidade em diversas áreas, incluindo literatura e filosofia. Jacques Derrida é considerado um dos pioneiros desta virada espectral, sobretudo a partir da publicacão de seu livro Espectros de Marx.
Ref: Derrida, J. Espectros de Marx, o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova internacional, trad. Annamaria Skinner. Ed. Relume Dumará, 1994.
Gordon, Avery Ghostly Matters, Haunting and the Sociological Imagination. University of Minnesota Press, 2008.
Blanco, Maria del Pilar et Peeren, E (eds) The Spectralities reader, ghosts and haunting. Bloomsblurry, 2013.
Fabulação especulativa
A fabulação especulativa é uma prática narrativa experimental, impulsionada por Donna Haraway e inspirada em Ursula Le Guin, que combina fatos científicos, ficção e fabulação para imaginar mundos alternativos e futuros possíveis. Ela visa romper com modos de produção de conhecimento já reconhecidos, oferecendo alternativas ao capitalismo e aos sistemas de pensamento voltados à extinção das diferenças. Tavia Nyong’o usa o termo afro-fabulação e Sadiya Hartman, a fabulação crítica. Trata-se de estratégias que usam a ficção para dar visibilidade a realidades camufladas ou banidas.
Nyong’o T. Afro-Fabulations, the queer drama of black life. Duke University Press, 2019.
Hartman, S. Perder a mãe uma jornada pela rota atlântica da escravidão, trad. José Luiz Pereira da Costa. Ed. Bazar do Tempo, 2021
Le Guin, Ursula A teoria da bolsa de ficção, trad. Isabel Diegues. Ed Cobogó, 2025.
Falha/Fracasso
Jack Halberstam propõe o fracasso ou a falha como uma estratégia dissidente e produtiva contra as normas do sucesso capitalista e heteronormativo. A falha é defendida como forma de resistência, permitindo modos de vida alternativos, empatia e a rejeição de modelos lineares de conquistas, usando exemplos da cultura popular, como animações da Pixar.
Halberstam, J. A arte queer do fracasso, trad. Bhuvi Libanio. Recife:ed CEPE, 2020
Naturezacultura
Donna Haraway propõe o conceito de "naturezacultura", a partir de autores como Ursula Le Guin, Octavia Butler e Karen Barad para implodir a dicotomia ocidental que separa o mundo natural do humano/cultural. Ela argumenta que humanos, outras espécies animais e vegetais, máquinas e tecnologia estão intrinsecamente entrelaçados em processos materiais e semióticos, formando compostos onde natureza e cultura emergem conjuntamente, em vez de existirem isoladamente.
Haraway, D. A Reinvenção da natureza: Símios, ciborgues e mulheres, trad. Rodrigo Tadeu Gonçalves. Ed Martins Fontes, 2023.
Novos materialismos
É um campo filosófico contemporâneo que busca novas articulações entre teoria, ciência e materialidade, rejeitando o antropocentrismo, o representacionalismo e a dicotomia sujeito-objeto. A abordagem foca na agência da matéria, reconhecendo a sua inteligência. Entre as autoras mais importantes desta vertente, destacam-se: Rosi Braidotti, Diana Coole, Samantha Frost, Jane Bennett e Karen Barad, cujas obras têm impactado os estudos sobre o Antropoceno, feminismo e arte. Essa corrente reage ao domínio teórico de discursos puramente construtivistas e culturais.
Ref: Coole and Frost (eds) New Materialisms, Ontology, Agency and Politics. Duke University Press, 2010.
Barad, Karen Meeting the Universe Halfway, Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning. Duke University Press, 2007.
Bennett, Jane Vibrant Matter, a political ecology of things. Duke University Press, 2010.
Braidotti, Rosi Post-human Feminism. Polity Press: 2022.
Ontopoder
O ontopoder é um conceito desenvolvido por Brian Massumi para descrever uma forma contemporânea de poder que não apenas regula a vida existente (biopoder), mas captura o seu potencial de criação, o devir e o "vir a ser" (ontogênese). Ele opera transformando o futuro e a vitalidade em processos controláveis, focando na capacidade de criação e transformação da vida. O ontopoder é, portanto, o poder de fazer vir a ser.
Ref. Massumi, B. Ontopower, war, powers and the state of perception. Duke University Press, 2015
Simpoiese
Significa fazer-com. Designa sistemas complexos, dinâmicos, responsivos, situados e históricos. Pensa a mundificação ou o fazer-mundos conjuntamente. De acordo com Donna Haraway, em 1998, a pós-graduanda em Estudos Ambientais M. Beth Dempser foi quem sugeriu o termo simpoiese para “designar sistemas produzidos coletivamente que não têm limites espaciais ou temporais autodefinidos, uma vez que a informação e o controle são distribuídos entre os componentes. Os sistemas são evolutivos e têm potencial para mudanças surpreendentes” (apud Haraway, p. 115). A noção de simpoiese vem sendo usada em diferentes circuitos de conhecimento.
Ref: Dempster, Beth. 2000. “Sympoietic and Autopoietic Systems: A New Distinction for Self-organizing Systems,” In Proceedings of the World Congress of the System Sciences and ISSS. Edited by J. K. Allen & J. Wilby, Toronto.
Margulis, L. and D. Sagan. 2002. Acquiring Genomes: A Theory of the Origin of Species. New York: Basic Books.
Maturana, H. and F. J. Varela. 1980. Autopoiesis and Cognition. The Realization of the Living. Dordrecht: D. Reidel.
Haraway, D. Ficar com o problema, fazer parentes no Chthuluceno, trad. Ana Luiza Braga. Ed n-1, 2023.
Transdualismo
O transdualismo é um conceito filosófico e queer, explorado por Zairong Xiang, que propõe ir além dos dualismos tradicionais (como yin/yang, homem/mulher, mente/corpo) e sem reproduzi-los no ato da crítica. Xiang sugere uma compreensão do mundo como um processo de transformação contínua, caótica e decolonial.
Ref: Xiang, Zairong. Transdualismo, em direção a uma corporificação material-discursiva, trad. Paula Faro, col Pandemia. Ed n-1, 2024.
Xiang, Zairong Antigos Caminhos Queer, uma exploração decolonial, trad Paula Faro e Gil Vicente. Ed n-1 2024.
Obs: O site de Zairong Xiang disponibiliza palestras, artigos e livros. https://www.xiangzairong.com
Transcriação
É um conceito proposto por Haroldo De Campos que nega a tradução como uma operação literal, complexificando o ofício do tradutor no sentido de extrapolar os significados dicionarizados, levando em conta sonoridades, visualidades e as poéticas das línguas. Transcriar um poema seria, portanto, criar um novo poema. Trata-se de uma semiótica da tradução que acabou se expandindo para além das linguagens verbais, inspirando uma pluralidade transcriações de alteridades culturais.
Ref: Greiner, C. e Fernanda Raquel. Transcriações entre Japão e Ocidente, ativismos, redes de afeto e processos de criação. Annablume, 2024.
Queiroz, Sonia Haroldo de Campos, da transcriação poética e semiótica, da operação tradutora. UFMG, 2011.




